30.11.09

Meu nome é terra

"Em Portugal, poetas e navegantes, terão trabalhado sempre para o mesmo fim (...) dar voz à natureza, à terra, - manifestá-la, trazê-la à luz"
Dalila Pereira da Costa

O Homem só pode falar realmente em nome da Natureza, da terra (não em nome próprio), pois só assim fala baseado no seu corpo, (com os pés) na terra que o faz viver.

"Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta"
Luiz de Camões

28.11.09

Rainha Santa

Não sabes Tricana linda
Porque chora quando canta
O rouxinol no choupal
É porque ele chora ainda
P´la Rainha mais Santa
Das Santas de Portugal


Henrique Rêgo

21.11.09

Regresso à Liberdade, à Natureza

René Magritte (21 de Novembro de 1898 - 15 de Agosto 1967) - Le retour

20.11.09

Alegoria da Caverna (II)

"(...) lançou Sócrates
a ideia geral (disse Platão) de que o corpo
é a face visível do espírito e o espírito
a invisível do corpo"

Agostinho da Silva



Caverna das sombras: dos sons/palavras/pensamentos (espírito),
separadas da luz (corpo).

15.11.09

Mundança

"a Poesia nasceu da Dança"
Teixeira de Pascoaes

A vida é a "dança que canta ao dançar" - Dora Ferreira da Silva, não o canto que dança ao cantar. Para que haja o som (a voz) é preciso, primeiro, o silêncio (o corpo).

7.11.09

Não fica nada



Instauração do Reino de Copas

Elevação do Rei Coração

4.11.09

Não se ensina o que sabemos ou julgamos saber: só ensinamos e podemos ensinar aquilo que somos

Jean Jaurès

Só aprendemos ou podemos aprender o que somos.
E só cada um pode aprender o que cada um é.

Ensinar/aprender é reproduzir-se/recriar-se
de novo: renascer (de si mesmo).
Ser eterno.

2.11.09

VER PARA VIVER

1. Introdução

"Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma." (Alberto Caeiro)

Para viver é necessário respirar, para ver(1) é necessário ouvir(2).
Para ouvir é necessário calar, tal como para inspirar novo ar é necessário expirar. É pedido então ao/à leitor/a que inspire de modo inteiro o que se segue, sem que conhecimentos anteriores o/a limitem, experimentando ver de novo.


(1)Ver o visível e o invisível em simultâneo
(2)Ouvir o silêncio e o som em simultâneo


- Ciência e Realidade Universal

“A palavra Universo indica que todas as coisas estão ali juntas, é dos vários lados um movimento para o centro” (Agostinho da Silva)

Os diversos fenómenos universais sucedem-se em conjunto e evoluem para um mesmo lugar, tendo como base um sistema de relação ternário. Derivado à sua origem comum e à continuidade entre origem, meio e fim, há um saber comum a todos os campos do conhecimento do Universo.
O Homem reproduz durante o desenvolvimento embrionário as etapas da evolução humana, mantém-se ligado ao seu passado natural. Na criança, a natureza original manifesta-se através de uma visão unida a si própria e ao mundo e de uma vivência espontânea.
Mas num só mundo coexistem dois mundos, um, da Natureza, do corpo, do silêncio, do inconsciente, do sentir, outro, do Homem (adulto), da mente, do/a som/palavra, do consciente, do pensar. Se por um lado o Homem não vê claramente a fronteira entre estes dois mundos, não os relacionando de modo pleno, por outro, vive em luta consigo mesmo, com a Natureza e com os outros, ao entendê-los como distintos.
Um indivíduo - a palavra indivíduo significa que não se divide - não pode ser entendido como dividido de si e do mundo, ao ser único e viver graças ao passado e à contínua relação com o exterior.
Concretizando, o Homem vive da Natureza no sentido em que respira e se alimenta através dela, à semelhança do embrião no ventre materno. Ambos mãe e filho, Natureza e Homem, criam-se espontaneamente, assim, qualquer visão que os divida despreza a mais primária ligação conhecida: a ligação à vida.


2. Interacção

- Transformação Recíproca e Simultânea entre Opostos/Inversos

Interior <-> Exterior
Noite <-> Dia
Sono <-> Vigília
Morte <-> Vida

Os opostos transformam-se entre si: o extremo interior cria o exterior, do útero nasce o filho, a extrema noite cria o dia, do fim da noite nasce o dia, do fim do sono a vigília, do fim da morte a vida, e vice-versa.
De modo similar, a Natureza transforma-se em Homem, o corpo em mente, o inconsciente em consciente, o silêncio/luz em som/palavra, o sentir em pensar, o visível em invisível, o ver em ouvir, o natural em artificial, o ser em conhecer, o pessoal/familiar em social/profissional, e vice-versa.


- Relação de Espelho entre Opostos



René Magritte - Espelho Falso

Original - Reflexo
Natureza - Homem
Corpo - Mente
Inconsciente - Consciente
Silêncio/Luz - Som/Palavra
Sentir - Pensar
Visível - Invisível
Ver - Ouvir
Natural - Artificial
Ser - Conhecer/Saber
Fonte - Ponte
Mãe - Pai
Pessoal/Familiar - Social/Profissional

A palavra espelho significa o que revela ou reproduz. O espelho de água, origem da vida, é invisível, transparente, apenas se vê o original que nele se reflecte, de modo invertido.
O Homem espelha a Natureza, a mente o corpo - o cérebro reflecte o coração, o consciente o inconsciente, o som/a palavra o silêncio/a luz, o pensar o sentir, o invisível o visível, o ouvir o ver, o artificial o natural, o conhecer o ser, a ponte a fonte, o pai a mãe, o social/profissional o pessoal/familiar.


“O Homem fala sem saber o que são palavras.” (Fernando Pessoa)

As palavras invisíveis reproduzem/revelam o mundo visível, funcionam como ponte de ligação do ser a si próprio e ao mundo. O Homem fala através do corpo, cria sons do silêncio – do sentir.
As palavras que espelham o ser de modo inteiro, transparentes, ao exprimirem o seu sentir original, estão unidas a ele e unem-no ao mundo, pelo contrário, as que o espelham de modo partido, representam apenas uma parte do ser, invertem-no, e separam-no de si e do mundo.
O Homem vê-se no espelho através do seu pensamento, convencendo-se de que é o seu reflexo, apesar de permanecer sendo aquele que (se) vê, o que de modo real/original (se) sente.
A mente que pretende controlar, por si, o corpo/a realidade equivale ao reflexo que pretende controlar o seu original.
O papel do pai é ser ponte para a mãe, para a fonte, é reflectir o ser original.

“As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.” (Herberto Hélder)


- Base e Complemento entre Opostos

Maria Keil - Dia da Mãe

A Natureza sustém o Homem, como o corpo sustém a mente.
A mãe, externa, contém e sustém o embrião, interno, como o corpo contém e sustém a mente. O cérebro corresponde ao ser embrião, é um órgão interno, pelo que a sua verdadeira ligação à realidade só pode ser feita pelos sentidos: só existe pensamento quando sentido, encarnado. O sentir antecede o pensar: o ser (já) existe antes de se pensar.


“Sem o sentir não é possível pensar ou conhecer o que se pensa.” (António Damásio)

Por analogia, o silêncio/a luz contém o/a som/palavra, o sentir o pensar, o inconsciente o consciente, o visível o invisível, o ver o ouvir, a mãe o pai, o natural o artificial, o ser o conhecer, o pessoal/familiar o social/profissional.
Naturalmente, o Homem apenas pode tomar consciência de uma realidade (viva) inconsciente, visto as funções vitais (do corpo, da Natureza) serem inconscientes: o consciente é consequente.



3. Acção

- Unidade da Vida: a Acção de Ver

A vida nasce da união de opostos, inseparáveis, dos pais nasce o filho que integra corpo e mente, os opostos.

“Ver é ouvir em luz, como ouvir é ver sonoramente.” (Teixeira de Pascoaes)

O Homem dá a ouvir palavras que (o) dão a ver: emite sons com a função de luz.
Para que o Homem (se) veja é necessário que recrie a sua natureza universal, una, que veja luz/silêncio e som/palavra, visível e invisível, unidos num só: veja de novo seres (vivos), não palavras (mortas).
A visão do Homem de si próprio inclui os vários níveis: pessoal, familiar, social e profissional, sendo a derradeira a que os conjuga a todos em simultâneo.
Habitualmente, o pensamento do Homem acontece separado (dos sentidos) do corpo, o ver físico é separado do ver mental (seu reflexo), ou se vê (sente) ou se pensa (ouve), no entanto, só se pode reflectir (sobre) o que se vê, ou seja, o fim do ver mental é o ver físico, a sua origem.
Tudo o que se vê é, antes de mais, o que se sente originalmente, não o que se pensa de modo reflectido, isto significa que ver é sentir, não é (só) pensar. O ver físico coincide com o ver mental através do sentir - do ver sentido, que une corpo e mente - o ser.


"Eu devia vê-las [as coisas[, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas, (...)
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma." (Alberto Caeiro)

- Viver: a Acção do Ser

“Não há factos – há homens.” (Fernando Pessoa).
“Conhecer é ser. Estes dois verbos representam a mesma acção.” (Teixeira de Pascoaes)

O Homem é, acima de tudo, o ser que (se) conhece, não o conhecimento que tem de si/do mundo. O ser só pode conhecer assente em si, sendo ele mesmo o que conhece, isto é, não existe conhecimento/saber vivo fora do ser, de cada Homem. Da união contínua e plena do ser com o conhecer surge o fazer ajustado ao ser e à realidade conhecida, um todo.
O sentir é simultâneo, é tanto inconsciente quanto consciente, é sentido pelo corpo inconsciente e percebido pela mente consciente. Além disso, é tanto visível quanto invisível, é visível o corpo que (se) está a sentir mas não a sensação provocada (somente os efeitos). É tanto Natureza quanto Homem, tanto silêncio/luz quanto som/palavra, tanto ver quanto ouvir, tanto ser quanto conhecer, tanto fonte quanto ponte, tanto mãe quanto pai, tanto pessoal/familiar quanto social/profissional, tanto natural quanto artificial.
O sentir/sentimento de si constitui a união de todos os opostos, é o fundamento para toda a acção do ser/o viver.

“O coração sendo o órgão do conhecimento e como o vero centro do homem.” (Dalila Pereira da Costa)


4. Conclusão

Com a evolução, o Homem passa a ver o mundo através de sons/pensamentos que imitam o real, abandonando a visão da realidade mais imediata e próxima (da origem do pensar). O simples ver é trocado pelo complexo pensar, porém, o ser só pode ter em vista ver, viver.
A sociedade humana parece orientar-se pela mente e pelos seus pensamentos invisíveis, pelo espelho e não directamente pelo real que nele se reflecte, invertido enquanto ambos estiverem partidos/separados, ou assim forem entendidos.
Assim, o que acontece é que se pensa através de sentimentos alheios e não dos próprios. A possibilidade de se viver através do que se sente, do que se é, é roubada ao Homem, com o pretexto de que pensamento e sentimento são fenómenos divisíveis: de que o Homem não é inteiro.


"(…) podemos ser nós os que, tendo realizado a missão de mostrar o mundo inteiro, irão, quando o quisermos, a de mostrar inteiro o Homem." (Agostinho da Silva)

Salvador Dalí - A Caravela

Não vemos pensamentos/palavras, apenas seres inteiros.

A acção humana ajustada à realidade universal resultará da total união do ser original com o seu reflexo, e fundar-se-á sobre o primeiro, sobre o mudo corpo/Natureza aliado à luz do olhar. Será a acção unida à visão viva, ao que o Homem realmente é - o sentir, o único sentido do Universo.

"E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo facto de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio." (Caetano Veloso)

Através do reconhecimento de que o pensamento é o espelho do sentimento, o Homem deixa de se condenar a si mesmo e entre si, deixa de haver leis inventadas por uns para outros, cada um pensa o que quiser, pois ambos sentir e pensar acontecem de modo espontâneo, ao serem causa e consequência de um mesmo (ser). Como é ilegítimo ordenar que se sinta, passará a sê-lo para o que se pense e faça: será, enfim, legítimo o viver, de acordo com a lei da vida: natural, humana e universal.

"Eu era de facto tão nova que (...) julgava que [as palavras] eram consubstanciais ao Universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio." (Sophia M.B. Andresen)

O derradeiro conhecimento/saber é vivo e liberta: é o (próprio) ser - é luz.

"A Ciência [de todo e cada Homem] é a alma do mundo, porque o seu nome diz-se Liberdade." (Antero de Quental)

Lima de Freitas - O Milagre das Rosas