29.1.15

A Sibila é a que deixa o vento da criação soprar através dos seus lábios...

 
"A Sibila arrasta-se no pó, soluça, seus lábios deliram,
traça no ar os gestos incertos dos agonizantes, colhe flores
na neblina. Ai, ai, oh... Foram-se os deuses da Grécia,
só espelhos reflectem espelhos, o eterno assim se dá e esconde.
(...)...
Ai, ai, neblina, o que enlaçarão agora nossos braços?
Não mais que névoa e vento. Apolo, assim te afastas, e me deixas presa
à teia indecifrável destes sons selvagens? Aaa Oooo...
Em teu ombro dourado me apoiava, inventando poemas que ditavas
a meu secreto entendimento. Infeliz de mim! Agora
só posso tocar névoa e memória. Dissiparam-se Mundo e Palavra.
A Sibila chorou.
(...)
O que tem ele - elas perguntam -
o que tem o teu Amado mais do que os outros
para que assim o busques, quase morta?
Meu Amado é róseo e brilhante
(...)
Quem é essa que vem do deserto
como um cântaro apoiado a um peito amoroso?
Ele é um selo sobre seu coração,
sobre seu braço moreno,
pois o Amor é forte como a Morte,
suas centelhas são de fogo:
uma chama divina!
Dissipa-se na névoa um rosto efêmero,
mas a face do Amado permanece."
Dora Ferreira da Silva
 
 
 
Sibila: " do latim 'Sibylla', nome de várias profetizas; Mulher a quem os antigos atribuíam o dom da profecia e o conhecimento do futuro."
Sibilar: "do latim 'sibilo'; Soprar produzindo um silvo agudo e prolongado. = ASSOBIAR, SILVAR; Acentuar consoantes sibilantes ao falar."
A Sibila é a que deixa o vento da criação soprar através dos seus lábios...
É a que fala a língua do coração

Algaravia: "Modo de falar dos árabes da Península Ibérica; Som de muitas vozes juntas"
A Sibila é a que algaravia, a que não perdeu a voz do sentir... africano
 
Algarve...
onde a Ria Formosa nos lembra que o Tempo é belo como o Eterno